"Eh, ô, ô, vida de gado, povo marcado, êh, povo feliz." Quase todo brasileiro sabe cantar esse refrão. Bem menos gente sabe o nome da música — e o que ela está mesmo dizendo.
A canção é "Admirável Gado Novo", de Zé Ramalho, de 1979. O título brinca com Admirável Mundo Novo, o livro de Aldous Huxley sobre uma sociedade que domestica as pessoas e as convence de que está tudo bem.
"Povo feliz" não é elogio
Esse é o ponto que quase sempre passa batido: quando a música diz "povo feliz", ela não está celebrando. É ironia.
O gado é feliz porque não sabe que é gado. Come, anda em fila, atende ao apito e nunca pergunta para onde está indo. A música compara isso com a vida de quem acorda, cumpre a rotina e volta para casa sem nunca ter tempo de perguntar o que está fazendo da própria vida.
Não é uma canção sobre pobreza. É sobre deixar de se perceber gente.
A diferença entre o boi e a pessoa
O boi é marcado a ferro por outro. Ele não escolheu a marca e não sabe que a tem.
A pessoa também carrega marcas — família, origem, o que passou, o que perdeu. Mas ela pode saber quais são, de onde vieram e o que fazer com elas. Isso muda tudo. O boi não sabe que está no curral; quem enxerga o curral já não está inteiramente dentro dele.
De onde vem o valor de uma pessoa
A resposta da Bíblia é incômoda para os dois lados: o valor de alguém não vem do que ele produz, nem do que os outros acham dele.
Vem de Gênesis 1:27 — feito à imagem de Deus. É anterior ao currículo, ao salário e à opinião alheia. Ninguém ganha isso por mérito e ninguém perde por fracasso.
Isso tem duas consequências práticas. A primeira é que você não precisa provar que vale. A segunda é mais difícil: a pessoa que te atende no caixa, que dirige o ônibus, que limpa a sala depois que todo mundo foi embora — ela tem exatamente o mesmo valor, e tratar alguém como número é fazer com o outro o que a música denuncia.
Trabalho não é curral
Rotina não é o problema. Quase toda vida tem repetição, e boa parte do que sustenta uma família é feito de dias parecidos.
O que vira curral é a repetição sem sentido nenhum — trabalhar sem saber para quê, ou sem que aquilo sirva a ninguém que você ame.
- Saiba para quem você trabalha. "Tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens" — Colossenses 3:23. Isso dá sentido até ao serviço que ninguém elogia.
- Guarde um tempo que não é de produção. O descanso semanal está entre os dez mandamentos. Não é preguiça; é o que impede a pessoa de virar só a sua função.
- Não meça o seu valor pelo mês que teve. Um mês ruim é um mês ruim. Não é um veredito sobre quem você é.
- Trate bem quem serve você. É o teste mais simples de saber se a gente entendeu ou não.